Para eu me lembrar:

"Descobri como é bom chegar quando se tem paciência. E para se chegar, onde quer que seja, aprendi que não é preciso dominar a força, mas a razão. É preciso, antes de mais nada, querer."

Amyr Klink

Linfoma de Hodgkin

"Linfoma é um câncer do sangue, potencialmente curável, que ocorre nos linfócitos, células do sistema linfático, que fazem parte da defesa natural do corpo contra infecções."

Pensamentos

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sexta-feira, 1 de março de 2013

Ufa! Objetivos sendo alcançados

A ansiedade por bons resultados muitas vezes nos tira do prumo. Mas jamais podemos abandonar o leme.
D+157 com boas novas! 

Depois de algumas dúvidas,  burocracias e questões particulares de 'covardia', fiz o exame que comprova o sucesso do transplante alogênico (mais que) haploidêntico, e tive o melhor resultado do mundo:

 
Observação:  Foi  observado  um sinal correspondente ao cromossomo X e um
sinal  correspondente  ao  cromossomo  Y  nas  200 intérfases analisadas,
sugerindo  QUIMERA COMPLETA  pós-transplante  de  célula  tronco 
hematopoética de doador masculino.

A quimera completa significa que a medula recebida no transplante assumiu completamente o comando da produção do meu sangue. Como o meu doador é do sexo masculino, agora a minha medula tem cromossomos X e Y. Significa que meu organismo aceitou totalmente a medula nova. Se tivesse rejeitado, a amostra traria apenas cromossomos X. 

Ainda estamos monitorando alguns linfonodos que insistem em permanecer do mesmo tamanho e até com captação metabólica. Mas estamos com um plano de ação em andamento, incentivando uma reação, uma briguinha da medula nova com eles, é o chamado efeito Enxerto contra a leucemia (no meu caso, linfoma) .  Meu organismo aceitou bem demais a medula nova, que nem era 100% compatível, por isso não tive nenhuma reação nem nos primeiros dias pós-transplante. Como diz um dos médicos da equipe do TCTH, foi um "transplante liso". Exames de sangue iguais aos de pessoas que nunca estiveram com linfoma, que nunca fizeram esses tratamentos super agressivos.


Obrigada, VIDA!


Fé na Vida! Sempre!


C@rin


"...dedos no leme e olhos no horizonte (...) É preciso antes de mais nada, querer."
Amyr Klink
2013: Eu tentando esquiar depois de 2 anos da 1ª aula... Meu tio, provedor de medula, na reta-guarda.


sábado, 19 de janeiro de 2013

Exemplos

Eu tenho visto muitos exemplos de vida e coragem em pessoas tidas como frágeis.
Pessoas que lutam como gigantes mesmo tendo corpos pequenos e frágeis, com pouca ou muita idade, mas que galgam lugares incríveis em grandes batalhas.

Particularmente, eu não gosto do termo "guerreiros", mas pensando-se em batalhas e lutas, o termo é coerente. Todas as vezes em que ouço alguém usá-lo no contexto dos tratamentos oncológicos, entendo-o de outra forma, como uma necessidade, como uma manifestação do instinto de sobrevivência, de falta de opções. 

Nesses últimos dias, três dessas pessoas morreram. É, resolvi usar o verbo morrer, porque ficar 'tampando o Sol com a peneira' não nos leva a nada. A realidade é esta. Primeiro a prima da minha cunhada, Analu; depois Felipe, um menino de Maceió; e por fim, a inglesinha Alice Pyne, que ficou conhecida por seus atos solidários. 

É estranha a minha percepção atual frente à morte. Não sei se isso é um sinal de endurecimento, de distanciamento, de desapego, de desesperança ou de desânimo, mas não fiquei triste com suas mortes. Não tive a vontade de chorar que outrora me dominaria. Apesar do peso que esses acontecimentos têm, eles também significam a libertação dessas pessoas e dos seus. A libertação da grande prisão que a doença se tornou para elas. Às vezes eu me sinto presa pelo câncer, mas é bem raro, sempre foram fases muito breves em que tive minha liberdade tolhida pelos tratamentos, afinal, mesmo nas vezes em que fiquei internada, eu mesma tive de resolver várias coisas, principalmente burocráticas, em vários âmbitos. Sempre de pé, sempre no controle. Eu não sei o que é ficar totalmente à mercê de outros, sem conseguir nem mesmo me levantar de uma cama. 

Infelizmente, muitas pessoas não conseguem sequer expressar suas vontades, que dirá levantar-se de uma cama hospitalar, ou reivindicar direitos, negociar questões burocráticas e até mesmo sair do hospital carregando suas malas e dirigindo. Quando conto que no 1º transplante o carro ficava na garagem do flat, e que nos dias em que eu não tomava psicotrópicos eu dirigia até o comércio do bairro para que meus acompanhantes comprassem o que precisávamos, as pessoas ficam um tanto desconfiadas de que seja uma história de pescador. Mas é verdade, tenho várias testemunhas. E foi sempre assim comigo. Só tive duas internações em que não conseguia fazer nada, e que precisei pedir que meus familiares fossem me levar e buscar no hospital, nas demais eu estava em plenas condições. Teve uma em que eu saí do hospital sozinha, de táxi. Bizarro... real. Por que estou me gabando disso? Só para dizer que nem sempre o câncer é devastador e debilitante. É possível sim viver bem. Mas quando não se vive bem, a morte pode ser a saída mais digna. 

Dias atrás eu li algumas críticas de pessoas que tiveram câncer a respeito de uma obra de ficção exibida na TV em que a pessoa diagnosticada com câncer pediu para um amigo assassiná-la no auge de sua carreira artística, pois sabia que o seu tipo de câncer não tinha cura, que definharia e sofreria muito até morrer. Optou então por ser morta.

Assisti ainda no início da semana passada ao filme "Escolha de vida", que conta a história do final de vida da Dra. Anne Turner, médica inglesa que foi diagnosticada com paralisia supranuclear progressiva, uma doença degenerativa incurável e progressiva, que leva à morte lentamente, como um vegetal. Por causa desse prognóstico e da experiência que teve com a doença e morte de seu marido devido a uma outra doença também degenerativa, ela optou pelo suicídio assistido. Tal modalidade de morte não é aprovada na Inglaterra, então ela o fez na Suíça.

Questões delicadas e polêmicas, na maioria das vezes, evitadas e repudiadas pelos pacientes e seus familiares. Anos atrás eu também seria irredutivelmente contra, mas hoje já não penso dessa forma tão fechada. Não sou a favor do suicídio nem do homicídio, sou sempre a favor da vida. E como optar pela vida quando ela já não pode mais ser vivida? Como pedir que uma pessoa continue sofrendo, e não vivendo?
Eu 'vivo' pedindo às pessoas que não desistam, que busquem outras opções de tratamento, outras opiniões, que não se deixem abater pelos resultados de exames e interpretações de um único serviço médico, que mesmo com o pior prognóstico é possível encontrar uma saída, que apesar de tudo ser contra, se existir uma única chance, é a ela que devemos nos agarrar e lutar pela 'vida'. Em momento algum eu passo a mão na cabeça e choro junto a morte anunciada, a falta de esperança e muito menos o desespero. Como já escrevi, sou e estou sempre a favor da vida. Mas da vida que possa ser vivida, que dê alegrias, que tenha atividade, que tenha propósitos, e não da vida dolorosa, que inspire preocupação e desgaste a todos, que tire o sono, que cause angústia, que cause desespero e incerteza. É preciso saber viver, é preciso poder viver.

Também não posso deixar de observar que nem em todos os serviços médico-hospitalares se conta com equipes humanas, que proporcionem não só o melhor atendimento profissional, como o suporte emocional e acolhedor que tanto precisamos quando fragilizados, em perigo iminente. Como pedir a um paciente que além das dores físicas e incapacitantes, tem de receber cuidados não dignos nos hospitais mal utilizados do ponto de vista humano? Como pedir que tenham calma e coragem, se são mal tratados, se não têm todos os remédios que necessitam para sanar suas dores e infecções? Como pedir que uma pessoa sobreviva para continuar passando por tantas mazelas? Como dizer que ficar vivo nessas condições é melhor do que morrer?

Essas três mortes de que tive notícia na outra semana, foram de três pacientes com histórias completamente diferentes entre si. Uma mulher jovem com câncer de mama que teve um tratamento, segundo ela, equivocado, mutilante e que nos últimos tempos optou por ter qualidade de vida, e não mais tratamentos tão agressivos. Um menino do nordeste que foi fazer tratamento em São Paulo, teve recidiva, e agora, numa viagem de descanso do tratamento à sua terra natal, teve de ser internado às pressas, onde se constatou um avanço agressivo do tumor, que o levou à morte encefálica e por fim à morte clínica. E uma adolescente inglesa, que por vários anos lutou contra o Linfoma de Hodgkin, e há pelo menos dois anos não havia mais esperança de cura, mas a exemplo do filme "The Bucket List", fez a sua própria lista e com a ajuda de amigos, familiares e novos parceiros, colocou todos os seus desejos em prática, os quais foram de treinar sua nova cachorrinha para uma competição até a nadar com baleias no Canadá, o tempo todo perpassando pela conscientização das pessoas para se cadastrarem como doadoras de medula óssea e a angariar fundos para doar e beneficiar outros pacientes.

Muitas histórias, muitas questões importantes que na maior parte de nossa vida queremos evitar. E por que evitamos?

Por medo de nossas próprias respostas?
Por medo de pensar como será a nossa morte?
Por medo de sofrer?
Por medo de desejar a morte?
Por medo de nos sentirmos tentados ao suicídio?
Por medo de nos arriscarmos ao viver?
Por medo de nos frustrarmos?
Por medo de nós mesmos?

Medo... Essa palavra nos faz ficar parados no mesmo lugar. Só que o mundo está em movimento, o tempo está em movimento, então nossos corpos se movem mesmo com a nossa inação. E, se (não) vivemos por causa do medo, perdemos oportunidades preciosas, que jamais voltarão. 

Portanto, temos de ter coragem para VIVER A VIDA!

E para encerrar, FÉ NA VIDA!

domingo, 30 de setembro de 2012

FÉ NA VIDA MULTIPLICADA

Esta foi uma semana recheada de boas notícias:

Hoje eu soube que nasceu a filhinha da Larissa. Vi uma linda foto da nova família na maternidade. 

A Amanda também teve seu bebê no domingo passado, mas eu só soube no meio desta semana.

Sejam muito benvindos, Maria Rosa e Vitor!

A Grazi me enviou um sms contando que entrou em remissão depois de apenas 4 (quatro) aplicações do Brentuximab Vedotim (anti-CD30). 

O Pedro Tavares, de Portugal, foi liberado para voltar a jogar futebol no seu time. 

O Pedrinho, do Rio de Janeiro, entrou em remissão, e mesmo com a compatibilidade 100% do cordão umbilical de seu irmãozinho Arthur, que chegou em agosto, não precisará mais fazer o transplante. 

O Pedro Henrique, de São Paulo, meu amiguinho de quimio na clínica, encontrou um cordão umbilical compatível no exterior, e poderá fazer o seu transplante em breve.

Que legal! Três Pedros com excelentes novidades!

Três pacientes aqui do TCTH tiveram alta nos últimos dias. 

Eu fiz o transplante alogênico na terça-feira e estou bem. 

E hoje de manhã foi o grande concerto do coral que eu participo, tenho certeza de que o Auditório do MASP ficou recheado dos sons maravilhosos que excelentes compositores brasileiros deste século compuseram especialmente para nós. 

Enfim, foi uma semana recheada de boas notícias. Notícias de renovação da vida, de renovação de esperanças, de vida!

Parabéns a todos!

E como diz a Camila Pacheco, vamos CELEBRAR A VIDA!

Mais do que nunca, uma semana recheada de FÉ NA VIDA!

C@rin






quinta-feira, 19 de abril de 2012

ALERTA


A enfermidade é um conflito entre a personalidade e a alma.
O resfriado escorre quando o corpo não chora.
A dor de garganta entope quando não é possível comunicar as aflições.
O estômago arde quando as raivas não conseguem sair.
O diabetes invade quando a solidão dói.
O corpo engorda quando a insatisfação aperta.
A dor de cabeça deprime quando as duvidas aumentam.
O coração desiste quando o sentido da vida parece terminar.
A alergia aparece quando o perfeccionismo fica intolerável.
As unhas quebram quando as defesas ficam ameaçadas.
O peito aperta quando o orgulho escraviza.
A pressão sobe quando o medo aprisiona.
As neuroses paralisam quando a “criança interna” tiraniza.
A febre esquenta quando as defesas detonam as fronteiras da imunidade.
Os joelhos doem quando o orgulho não se dobra.
O câncer mata quando não se perdoa e/ou cansa de viver.
E as dores caladas? Como falam em nosso corpo?
A enfermidade não é má, ela avisa quando erramos a direção.


Fé na vida!

Obs.: Essa mensagem está afixada na entrada de um espaço terapêutico.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Ela pulsará sempre em muitos corações

Eu escrevi o texto abaixo assim que soube da morte de Elaine Cesar. Agora está fazendo um mês que ela partiu, e o meu pensamento pouco mudou. Jamais me acostumarei com essa barbárie vivida por essa mulher e seus filhos.

C@rin - 26/02/2012




São Paulo, 1º de fevereiro de 2012.


Triste, inconformada, desiludida, incrédula, revoltada, indignada, passada, cansada, chateada... são tantos sentimentos, que nem consigo descrever todos...

Acontecimentos como a morte da Elaine mexem comigo. Muitas vezes me calo, me revolto sozinha por não ter nada de mais útil e acolhedor para falar às pessoas próximas a quem se vai. De certa forma é uma negação da realidade sombria que nos visita nessas ocasiões, e perpassa todos os nossos tratamentos. 

Nesta terça-feira senti um grande sono e cansaço depois de ler a notícia, de checar, de revisitar o blog, de escrever algumas palavrinhas no Facebook, e me debulhar em lágrimas. Já senti algo semelhante outras vezes, mas essa doeu diferente.

O sentimento de impotência é enorme. A indignação com aquele que detém o título de pai do seu filho mais velho é imensurável. 

Confesso que não gosto de sentir essas coisas, mas tal crueldade me enoja. 

Rudá. 32 semanasQuando eu digo que relacionamentos/casamentos e principalmente filhos, são coisas muito sérias, algumas pessoas me julgam extremista ou até medrosa, mas essa história prova que sempre temos de ter consciência de tudo em nossas vidas, para vivê-las da melhor maneira, com muita paixão e também muita razão, precisamos equilibrar tudo.

O perfil da nossa amiga foi excluído do facebook, mas seu blog continua aberto. Mais do que isso, sua obra está e continuará viva, tanto em seus trabalhos artístico-culturais quanto nos seus filhinhos lindos. 

Quero muito que seu projeto do documentário sobre alienação parental, idealizado para denunciar as atrocidades vividas por ela e muitas outras famílias dilaceradas pelo egoísmo e maldade de quem antes fez juras de amor, e depois usa/usou seus próprios filhos para magoar e derrubar o antigo parceiro. Quero que a Justiça Brasileira julgue corretamente todos os fatos, denúncias e episódios que acabaram por roubar meses de uma fase que precisava ser de tranqüilidade e segurança na vida dessa mulher que conheci apenas pelas frias telas de computadores, mas que é real. Quero a cada nova vez que eu pisar no TeatroOficina, sentir a emoção do ano passado, por cantar naquele lugar sabendo de sua luta, sabendo que ali dentro, ela participou de inúmeras criações, de momentos incríveis, que seus filhos foram gerados naquela atmosfera criativa, artística e livre. Quero que Théo e Rudá tenham a mãe sempre viva em seus olhares, em seus sorrisos, em suas trajetórias. Quero que pelo menos o Brasil saiba quem foi essa moça batalhadora, que encontrou uma força inigualável para combater o linfoma e a inveja psicótica durante uma gravidez, e ainda trazer à Terra mais um menino calmo, saudável e sorridente, assim como reconquistar a guarda e a alegria de ter seu filho mais velho, de apenas 4 anos. 


Elaine venceu na vida. Só que o empenho foi tão grande, tão avassalador, que consumiu anos a que teria direito para acompanhar o crescimento de seus filhos, para produzir novas artes, para rir, saborear e vibrar em inúmeras outras aventuras. Agora, seu exemplo nos guia em busca de dias melhores, pois se uma moça bonita, em tão delicado momento, foi capaz de superar tantos obstáculos e ainda gerar um filho super saudável, sorrindo para a vida, encarando-a de frente, com garra inigualável, quem somos nós para reclamar ou esmorecer?



Elaine Cesar, eu te agradeço pela luta incansável, pela coragem, pela fibra que provou ter. 

Tal qual o título de seu último post no blog, Elaine: "Tempo. Silêncio."

Você continua viva em muitos e muitos corações. Parabéns!


Conheçam essa história no blog Câncer, gravidez e alienação parental . E vejam um trecho de um de seus últimos trabalhos, o documentário sobre José Celso Martinez Corrêa e o TeatrOficina: "EVOÉ! Retrato de um antropófago"





segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

DESEJO (Carlos Drummond de Andrade)

Carlos Drummond de Andrade

Desejo a você... 
Fruto do mato  
Cheiro de jardim 
Namoro no portão 
Domingo sem chuva 
Segunda sem mau humor 
Sábado com seu amor 
Filme do Carlitos 
Chope com amigos 
Crônica de Rubem Braga
Viver sem inimigos 
Filme antigo na TV 
Ter uma pessoa especial 
E que ela goste de você 
Música de Tom com letra de Chico 
Frango caipira em pensão do interior 
Ouvir uma palavra amável 
Ter uma surpresa agradável 
Ver a Banda passar 
Noite de lua Cheia 
Rever uma velha amizade 
Ter fé em Deus 
Não ter que ouvir a palavra não 
Nem nunca, nem jamais e adeus. 
Rir como criança 
Ouvir canto de passarinho 
Sarar de resfriado 
Escrever um poema de Amor 
Que nunca será rasgado 
Formar um par ideal 
Tomar banho de cachoeira 
Pegar um bronzeado legal 
Aprender uma nova canção 
Esperar alguém na estação 
Queijo com goiabada 
Pôr-do-Sol na roça 
Uma festa 
Um violão 
Uma seresta 
Recordar um amor antigo 
Ter um ombro sempre amigo 
Bater palmas de alegria 
Uma tarde amena 
Calçar um velho chinelo 
Sentar numa velha poltrona 
Tocar violão para alguém 
Ouvir a chuva no telhado 
Vinho branco 
Bolero de Ravel... 
E muito carinho meu.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Fechamento de 2010


Esse não foi um ano fácil. Pelo contrário. Começou com uma grande expectativa e uma grande incerteza: meu TMO. 

Essa parte deu certo. Veio então a fase de adaptação em casa, as novas necessidades, e a nova batalha, chamada radioterapia.

A radioterapia foi a fase mais tranqüila do tratamento, mas foi a mais difícil. O plano de saúde negou-me a modalidade indicada pelos médicos, precisei assegurar esse direito na justiça. Assim que essa parte foi solucionada, começamos os preparativos, e num dos últimos dias de testes da máscara, minha avó foi embora. Então a vida virou de ponta-cabeça (e não só a minha), até meu cachorro precisou se adaptar à nova realidade que ainda está se desenhando. 

Deixei que o tempo passasse - até demais. Dormi muito, deixei tudo de lado, aliás, já não tinha nada para fazer. Sabia que precisava mudar, que precisava me movimentar, mas não tinha ânimo para nada. Minha única obrigação, que na verdade fora uma opção, era o coral. Portanto, apenas nas tardes de sábado eu tinha ocupação certa. No meio das minhas "viagens" pela internet vi alguns cursos, me inscrevi e tomei coragem pra até mesmo prestar vestibular. 

Fiz um curso de férias, entrei num curso técnico, comecei a regrar meus dias. Minha vida começou a ter horários novamente, comecei a ter o que fazer, a vida me animou novamente. Felizmente, a vida voltou a fazer sentido. Embora os cursos ainda não tenham me trazido nenhum conhecimento novo, pelo menos estou reciclando-os, e se tratando de música, tudo o que exercitamos é lucro, pois ao pararmos, enferrujamos, esquecemos, pois perdemos a técnica. Prestei também um concurso público para professora de piano e o vestibular para Licenciatura em Educação Musical, passei nos dois. Agora é organizar a vida para fazer tudo com tempo hábil, sem afobação, sem desgaste. O curso técnico termina no final de 2011, mas a faculdade terá 5 anos, então, é preciso muita vontade e organização mesmo.

Minhas postagens aqui no blog têm diminuído, e talvez espacem-se ainda mais, pois meus objetivos agora são outros. O foco de minha vida voltou a ser a música e a educação, paixões antigas que tive de deixar um pouco de lado durante o tratamento, mas nunca totalmente. Estou desenferrujando, abrindo novamente as portas, caminhando por caminhos já percorridos e também por outros novos. Espero em breve ter bons resultados disso tudo. 

Aproveito para dizer que meus exames de novembro foram ótimos, terei de repeti-los somente em março, e em junho farei meu PET anual. Em janeiro começarei minha nova carteira de vacinação, semana que vem devo ir ao Centro de Imunologia para retirar o calendário de vacinação e saber onde as farei. Espero que o blog continue ajudando pessoas em tratamento a tirar algumas dúvidas, a procurar fontes de informações seguras, conversar abertamente com seus médicos, demais profissionais e também com outros pacientes. Isso tudo que me manteve forte, de cabeça erguida para me tratar. Estou feliz por ter minha vida de volta, pelos novos planos, pelas novas realizações, pelas novas flores que têm surgido em minha vida. 

Nada é fácil, mas mesmo as coisas difíceis nos trazem aprendizado. 

Conheci muitas pessoas virtualmente, a maioria bem intencionada, querendo apenas trocar informações e aliar forças nessa guerra imensa que travamos pela saúde. Algumas dessas pessoas moram no meu coração, e jamais perderemos contato, mesmo aquelas que não estão mais nesse mundo. Senti-me privilegiada por conhecer pessoalmente algumas dessas pessoas, a emoção foi indescritível, posso afirmar, com todas as letras, que essas pessoas estavam na internet com o mesmo propósito que eu, e que essas amizades, mesmo de longe, nunca se perderão. É difícil explicar isso para nossa família e amigos de longa data, que nos conheceram da forma tradicional (pessoalmente), com quem convivemos em diversos núcleos presenciais, mas é verdade. Assim como não escolhemos nossa família, e muitas vezes nos decepcionamos com o que alguns de nossos parentes fazem ou falam, o mesmo pode acontecer com os amigos, mas em menor escala, afinal, podemos simplesmente romper a amizade.

Também conheci pessoas que se aproveitam da nossa boa fé, pessoas que - a meu ver - são mais doentes do que quem é diagnosticado com câncer, pessoas que se passam por doentes tendo saúde de ferro. Pessoas que se fazem de vítima, que choram as pitangas para receber apoio moral e até financeiro. Ou seja, fazem papel de doente, se valem dessa condição para "atormentar" quem realmente está doente, desviando a atenção do que é sério. Faço um alerta, para que outras pessoas não caiam no mesmo tipo de golpe. Que conversem sim com outros pacientes, que troquem informações, que divirtam-se, brinquem, mas que tomem cuidado com lamentos exagerados, e principalmente com conversas de falta de tratamento. Isso tudo gera um enorme desgaste emocional, e até mesmo material, posto que alguns tentam até mesmo receber doações em dinheiro (lógico que são orgulhosos, que não aceitam no início, mas no fim acabam passando até conta bancária para receber esse auxílio).

Embora nosso país tenha sérios problemas na saúde pública, na área oncológica, ainda que não seja o ideal, atende sim seus pacientes, e possui profissionais sérios e humanos, que fazem tudo para melhorar a qualidade de vida dos pacientes. Lógico que para mim é fácil dizer isso, pois meu tratamento foi feito todo em plano de saúde. Mas sou funcionária pública, fui voluntária numa instituição muito séria e conhecida desde a adolescência, e conheço de perto alguns serviços públicos de saúde, e a diferença nos serviços de oncologia são imensas. Falo isso porquê converso com outros pacientes atendidos por esses serviços, e já visitei alguns também. Agora em dezembro terminei um curso de Pedagogia Hospitalar, e sei dos atendimentos oncológicos pediátricos prestados pelo SUS. Temos muito a conquistar, mas temos também muito a valorizar.

Pacientes onco-hematológicos, procurem a ABRALE (Associação Brasileira de Linfoma e Leucemia), que é uma instituição seríssima, que ampara os pacientes e seus familiares em todos os âmbitos. Felizmente, hoje o câncer não é mais sentença de morte, principalmente na hematologia, cujos progressos nos tratamentos nos últimos anos têm sido imensos, chegando em alguns casos, à busca da menor toxicidade, e conseqüente melhoria da qualidade de vida, não mais da cura, pois essa já tornou-se realidade.

Enfim, o que deveria ser um pequeno post, acabou ficando desse tamanho. Como sempre, não sei esgotar um assunto sem passar por outros. É uma das coisas que preciso aprender. 


Abraços e fé na vida!


Carin


P.S.: Todos os comentários e os recados deixados no E-mail são enviados para o meu e-mail, portanto, continuem entrando em contato, que responderei a todos.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

TRAVESSIA


Composição: Milton Nascimento / Fernando Brant

Quando você foi embora fez-se noite em meu viver

Forte eu sou mas não tem jeito, hoje eu tenho que chorar

Minha casa não é minha, e nem é meu este lugar

Estou só e não resisto, muito tenho prá falar

Solto a voz nas estradas, já não quero parar

Meu caminho é de pedras, como posso sonhar
Sonho feito de brisa, vento vem terminar
Vou fechar o meu pranto, vou querer me matar

Vou seguindo pela vida me esquecendo de você

Eu não quero mais a morte, tenho muito que viver

Vou querer amar de novo e se não der não vou sofrer

Já não sonho, hoje faço com meu braço o meu viver

Solto a voz nas estradas, já não quero parar
Meu caminho é de pedras, como posso sonhar
Sonho feito de brisa, vento vem terminar
Vou fechar o meu pranto, vou querer me matar

sábado, 20 de novembro de 2010

Estado de espírito

"Assim como protegemos nossa felicidade, temos também que proteger nossa infelicidade. Não há nada mais desgastante do que uma alegria forçada. Se você está infeliz, recolha-se, não suba ao palco. Disfarçar a dor é dor ainda maior."
Martha Medeiros 


Não é no silêncio que os homens se fazem, mas na palavra, no trabalho, na ação-reflexão
Paulo Freire 

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Um exercício na aula de Psicologia da Morte

O tema assusta a maioria, mas nada mais é do que uma parte da vida que inevitavelmente TODOS passaremos, seja como quem parte, como quem fica e/ou ambos.

Na noite de hoje, a professora de Psicologia propôs um exercício, a partir do qual depois refletimos e pontuamos algumas idéias, indagações e trocamos experiências. Abaixo vai o que eu escrevi:


Fica aqui o convite para que cada um pense (ou até escreva) sobre esse assunto. A vida é breve, muitas vezes nos surpreende, sem nos dar alternativas ou novas chances.

domingo, 20 de junho de 2010

A MELHOR FORMA

Titãs
Composição: Branco Mello/ Sérgio Britto/ Paulo Miklos



A melhor forma de esquecer
É dar tempo ao tempo
A melhor forma de curar o vício
É no início
A melhor forma de escolher
É provar o gosto
A melhor forma de chorar
É cobrindo o rosto
Evitar as rugas
É não olhar no espelho
Esvaziar o revólver
É puxar o gatilho
A melhor forma de esconder as lágrimas
É na escuridão
A melhor forma de enxergar no escuro
É com as mãos
As idéias estão no chão
Você tropeça e acha a solução
Acabar com a dor
É tomar um analgésico
Matar a saudade
É não olhar pra trás
A melhor forma de manter-se jovem
É esconder a idade
A melhor forma de fugir
É a toda velocidade
As idéias estão no chão



domingo, 23 de maio de 2010

Saudade é o amor que fica

Médico cancerologista, já calejado com longos 29 anos de atuação profissional, com toda vivência e experiência que o exercício da medicina nos traz, posso afirmar que cresci e me modifiquei com os dramas vivenciados pelos meus pacientes.

Dizem que a dor é quem ensina a gemer. Não conhecemos nossa verdadeira dimensão, até que, pegos pela adversidade, descobrimos que somos capazes de ir muito mais além. 

Descobrimos uma força mágica que nos ergue, nos anima, e não raro, nos descobrimos confortando aqueles que vieram para nos confortar.

No início da minha vida profissional, senti-me atraído em tratar crianças, me entusiasmei com a oncologia infantil. Tinha, e tenho ainda hoje, um carinho muito grande por crianças. Elas nos enternecem e nos surpreendem como suas maneiras simples e diretas de ver o mundo, sem meias verdades.

Nós, médicos, somos treinados para nos sentirmos "deuses". Só que não o somos! Não acho o sentimento de onipotência de todo ruim, se bem dosado. É este sentimento que nos impulsiona, que nos ajuda a vencer desafios, a se rebelar contra a morte e a tentar ir sempre mais além. 

Se mal dosado, porém, este sentimento será de arrogância e prepotência, o que não é bom. Quando perdemos um paciente, voltamos à planície, experimentamos o fracasso e os limites que a ciência nos impõe e entendemos que não somos deuses.

Somos forçados a reconhecer nossos limites! Recordo-me com emoção do Hospital do Câncer de Pernambuco, onde dei meus primeiros passos como profissional.

Nesse hospital, comecei a freqüentar a enfermaria infantil, e a me apaixonar pela oncopediatria. Mas também comecei a vivenciar os dramas dos meus pacientes,
particularmente os das crianças, que via como vítimas inocentes desta terrível doença que é o câncer.


Com o nascimento da minha primeira filha, comecei a me acovardar ao ver o sofrimento destas crianças. Até o dia em que um anjo passou por mim.

Meu anjo veio na forma de uma criança já com 11 anos, calejada porém por 2 longos anos de tratamentos os mais diversos. Hospitais, exames, manipulações, injeções, e todos os desconfortos trazidos pelos programas de quimioterapias e radioterapia.

Mas, nunca vi meu anjo fraquejar. Já a vi chorar sim, muitas vezes, mas não via fraqueza em seu choro. Via medo em seus olhinhos algumas vezes, e isto é humano! Mas via confiança e determinação.

Ela entregava o bracinho à enfermeira, e com uma lágrima nos olhos dizia: 


- Faça tia, é preciso para eu ficar boa.

Um dia, cheguei ao hospital de manhã cedinho e encontrei meu anjo sozinho no quarto. Perguntei pela mãe. E comecei a ouvir uma resposta que ainda hoje não consigo contar
sem vivenciar profunda emoção. Meu anjo respondeu:


-Tio, disse-me ela, às vezes minha mãe sai do quarto para chorar escondido nos corredores. Quando eu morrer, acho que ela vai ficar com muita saudade de mim. Mas eu não tenho medo de morrer, tio. Eu não nasci para esta vida!

Pensando no que a morte representava para crianças, que assistem seus heróis morrerem e ressuscitarem nos seriados e filmes, indaguei:

- E o que a morte representa para você, minha querida?

- Olha tio, quando a gente é pequena, às vezes, vamos dormir na cama dos nossos pais, e, no outro dia acordamos no nosso quarto, em nossa própria cama não é?

(Lembrei minhas filhas, na época crianças de 6 e 2 anos, costumavam dormir no meu quarto e após dormirem eu procedia exatamente assim.)

- É isso mesmo, e então?- perguntei.

-Vou explicar o que acontece, continuou ela:
Quando nós dormimos, nosso pai vem e nos leva nos braços para o nosso quarto, para nossa cama, não é?

- É isso mesmo querida, você é muito esperta!

- Olha tio, eu não nasci para esta vida! 

Um dia eu vou dormir e o meu Pai vem me buscar. Vou acordar na casa Dele, na minha vida verdadeira!

Fiquei "entupigaitado". Boquiaberto, não sabia o que dizer. Chocado com o pensamento deste anjinho, com a maturidade que o sofrimento acelerou, com a visão e grande espiritualidade desta criança, fiquei parado, sem ação. 

- E minha mãe vai ficar com muitas saudades minha, emendou ela. 

Emocionado, travado na garganta, contendo uma lágrima e um soluço, perguntei ao meu anjo:
- E o que a saudade significa para você, minha querida?

- Não sabe não tio? Saudade é o amor que fica!

Hoje, aos 53 anos de idade, desafio qualquer um dar uma definição melhor, mais direta e mais simples para a palavra saudade: é o amor que fica!

Um anjo passou por mim...

Foi enviado para me dizer que existe muito mais entre o céu e a terra, do que nos permitimos enxergar. Que geralmente, absolutilizamos tudo que é relativo (carros novos, casas, roupas de grife, jóias) enquanto relativizamos a única coisa absoluta que temos, nossa transcendência.


Meu anjinho já se foi, há longos anos. Mas deixou uma grande lição, vindo de alguém que jamais pensei, por ser criança e portadora de grave doença, e a quem nunca mais esqueci.

Deixou uma lição que ajudou a melhorar a minha vida, a tentar ser mais humano e carinhoso com meus doentes, a repensar meus valores.


Hoje, quando a noite chega e o céu está limpo, vejo uma linda estrela a quem chamo "meu anjo", que brilha e resplandece no céu. Imagino ser ela, fulgurante em sua nova e eterna casa.

Obrigado anjinho, pela vida bonita que teve, pelas lições que ensinastes, pela ajuda que me destes.

Que bom que existe saudades!

O amor que ficou é eterno!!!

(Rogério Brandão - Médico Oncologista clínico RC Recife Boa Vista D4500 Cremepe 5758)